Um em cada cinco brasileiros sofre mais com a perda de um animal de estimação do que com a morte de um familiar

de Návio Leão

Para uma em cada cinco pessoas, a perda de um animal de estimação foi mais dolorosa do que a morte de um ente querido. É o que revela uma pesquisa recente que analisou experiências de luto envolvendo pets e familiares.

Segundo o levantamento, 21% dos entrevistados que passaram pelas duas situações afirmaram que a morte do animal foi mais difícil de suportar do que a perda de uma pessoa próxima. Os dados desafiam a forma como a sociedade encara o luto por animais.

Com frequência, esse tipo de sofrimento é tratado como um “luto não reconhecido”, quando a dor não recebe a mesma validação social atribuída a outras perdas. Ainda assim, para a maioria dos tutores, os pets ocupam um papel central na vida familiar.

Uma pesquisa realizada em 2025 pela instituição de proteção animal RSPCA apontou que 99% das pessoas consideram seus animais de estimação membros da família. Nas redes sociais, a hashtag #dogsarefamily já reúne mais de 3,4 milhões de publicações.

Luto pode ser comparável ao da perda humana

O estudo mais recente ouviu 975 adultos britânicos e trouxe um dado relevante. Cerca de 7,5% das pessoas que perderam um pet apresentaram critérios clínicos para o chamado transtorno de luto prolongado.

O índice é semelhante ao observado após muitas mortes humanas. A pesquisa foi publicada na revista científica PLOS One.

O luto costuma envolver emoções como tristeza, culpa, negação, raiva e até alívio. Já o transtorno de luto prolongado é mais grave e persistente. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), o quadro compromete o funcionamento da pessoa por 12 meses ou mais após a perda.

Atualmente, apenas mortes humanas se enquadram nesse diagnóstico. No entanto, a pesquisa liderada por Philip Hyland, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, não encontrou diferenças significativas na manifestação dos sintomas entre quem perdeu uma pessoa e quem perdeu um animal de estimação.

Falta de reconhecimento agrava o sofrimento

A perda de pets respondeu por 8,1% de todos os casos de transtorno de luto prolongado identificados no estudo. O percentual é superior ao observado em diversos tipos de perdas humanas.

Pessoas que perderam um animal apresentaram 27% mais chances de desenvolver o transtorno do que aquelas que não passaram por essa experiência. O índice fica abaixo apenas da perda de pai ou mãe, que chegou a 31%.

Já a perda de irmãos apresentou índice de 21%, ficando atrás do luto por animais. Também foram superadas as perdas de amigos próximos e outros familiares.

De acordo com os pesquisadores, o fator mais importante não é quem morreu, mas a qualidade e o significado do vínculo entre o enlutado e quem se foi.

Apoio social faz diferença

Um dos principais fatores de risco para o transtorno de luto prolongado é a falta de apoio social. Pessoas que perdem animais frequentemente enfrentam o sofrimento sem compreensão, o que pode agravar o quadro emocional.

Muitos participantes relataram vergonha ou constrangimento em expressar a dor pela perda de um pet. Esse silêncio tende a aumentar o isolamento emocional.

Desafios específicos da perda de um pet

A falta de reconhecimento oficial do luto por animais dificulta o acesso a apoio psicológico e até a ajustes no ambiente de trabalho durante esse período.

Além disso, a morte de um pet envolve situações específicas, como a decisão pela eutanásia. Para alguns tutores, essa escolha traz conforto. Para outros, pode gerar culpa e sofrimento intenso, especialmente quando há dúvidas sobre o momento da decisão.

Situações traumáticas aumentam o risco de desenvolvimento do luto prolongado.

Embora o estudo indique que os critérios do DSM-V possam precisar de atualização, já existem formas de apoio. A RSPCA disponibiliza kits de acolhimento ao luto por animais, e profissionais especializados oferecem acompanhamento psicológico voltado a esse tipo de perda.

Buscar ajuda especializada pode reduzir o sofrimento e garantir acolhimento, compreensão e compaixão em um dos momentos mais delicados da vida.

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