Banco Central surpreende mercado e mantém taxa Selic em 13,75% ao ano

de Návio Leão

O Banco Central (BC) decidiu manter a taxa básica de juros da economia brasileira em 13,75% ao ano. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e contrariou a expectativa de parte do mercado financeiro, que apostava em um corte de 0,25 ponto percentual.

A decisão ocorre em meio ao aumento das incertezas econômicas, especialmente em relação ao câmbio, às tensões no Oriente Médio e aos possíveis impactos do fenômeno climático El Niño sobre a inflação.

Em comunicado, o Copom destacou que as expectativas de inflação continuam acima da meta e que o cenário econômico exige cautela. Além disso, o Banco Central não apresentou indicações sobre os próximos movimentos da taxa de juros.

Segundo o órgão, o aumento das incertezas, as expectativas inflacionárias mais elevadas e a desaceleração da atividade econômica tornam a condução da política monetária mais desafiadora.

Histórico de cortes e cenário econômico

A manutenção da Selic interrompe o movimento de redução iniciado em abril de 2026. Entre junho de 2025 e março de 2026, a taxa permaneceu em 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas.

A partir de abril, o Copom iniciou uma sequência de cinco cortes, em um cenário de desaceleração da inflação. Entretanto, o agravamento da guerra no Oriente Médio, as perspectivas relacionadas ao El Niño e a instabilidade cambial aumentaram as preocupações da autoridade monetária.

Outro fator que chama a atenção é a composição da diretoria do Banco Central. O órgão está desfalcado desde o fim de 2025, quando expiraram os mandatos dos diretores de Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e de Política Econômica, Diego Guillen.

Até o momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não encaminhou ao Congresso Nacional as indicações dos substitutos.

Inflação continua acima da meta

A taxa Selic é o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Em outubro, o IPCA-15, considerado a prévia da inflação oficial, registrou alta de 0,32%. O resultado foi influenciado principalmente pela redução nas contas de energia elétrica.

Apesar disso, a inflação acumulada em 12 meses avançou de 4,5% para 4,62%, ultrapassando o limite superior da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Atualmente, o objetivo do Banco Central é manter a inflação em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Portanto, o intervalo permitido varia entre 1,5% e 4,5%.

Desde janeiro de 2025, o país adota o sistema de meta contínua de inflação. Nesse modelo, o BC acompanha mensalmente a variação acumulada dos preços em 12 meses, em vez de considerar apenas o resultado fechado de dezembro.

O Banco Central também mantém atenção sobre as projeções para 2026. No último Relatório de Política Monetária, divulgado no fim de setembro, a instituição estimou inflação de 5,2% para o ano. Entretanto, a previsão deverá passar por uma revisão na próxima edição do documento.

As expectativas do mercado financeiro também permanecem acima da meta. De acordo com o boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, os analistas projetam que o IPCA encerre 2026 em 5,22%.

Antes do início da guerra no Oriente Médio, a estimativa estava em 3,95%.

Juros menores podem baratear o crédito

A taxa Selic influencia diretamente o custo do dinheiro no Brasil. Quando o Banco Central reduz os juros, o crédito tende a ficar mais barato, o que pode estimular o consumo das famílias e os investimentos das empresas.

Por outro lado, juros menores também podem aumentar a demanda por produtos e serviços, dificultando o controle da inflação.

Já quando o BC mantém ou eleva a taxa básica, o crédito fica mais caro. Consequentemente, famílias e empresas tendem a reduzir o consumo e os investimentos, enquanto a poupança pode se tornar mais atrativa.

No último Relatório de Política Monetária, o Banco Central reduziu para 1,8% a previsão de crescimento da economia brasileira em 2026.

A projeção do mercado financeiro é um pouco menor. Segundo o boletim Focus, os analistas estimam expansão de 1,76% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Há quatro semanas, a expectativa era de crescimento de 1,85%.

A decisão de manter a Selic em 13,75% indica que o Banco Central pretende acompanhar a evolução da inflação e dos fatores externos antes de definir os próximos passos da política monetária.

Fonte: Agência Brasil | Edição: TV Sudeste

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário