
A valorização do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já provoca reflexos no mercado de commodities agrícolas e aumenta a preocupação com possíveis impactos nos preços dos alimentos. Produtos como açúcar, trigo, café, soja e milho registraram altas, movimento que pode chegar ao consumidor nos próximos meses.
A alta da moeda americana favorece os produtores brasileiros que comercializam suas mercadorias no mercado internacional. Entretanto, também pode elevar os custos de produção e pressionar os preços de diferentes produtos nas prateleiras dos supermercados.
Na semana seguinte à eleição presidencial, o dólar acumulou valorização de 9,2%. Na terça-feira (3), a moeda chegou a R$ 5,486, maior cotação desde dezembro de 2025. Já nesta quarta-feira (4), abriu em queda após a vitória dos democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos. Às 9h48, era cotada a R$ 5,475.
Soja e milho registram alta após valorização do dólar
Os primeiros reflexos da movimentação cambial já aparecem nas cotações dos grãos. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a valorização do dólar aumentou a competitividade da soja brasileira no mercado internacional e estimulou o interesse de compradores estrangeiros.
Na terça-feira (3), a saca de 60 quilos de soja estava cotada a R$ 152,45 no Paraná, alta de 3,9% em relação ao valor registrado em 23 de outubro, antes do segundo turno das eleições.
O milho também apresentou valorização. Na região de Campinas (SP), a saca de 60 quilos chegou a R$ 66,19, avanço de 3% em comparação com os R$ 64,27 registrados antes da votação.
De acordo com o analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, a formação dos preços de grande parte das commodities brasileiras considera as cotações internacionais. Dessa forma, a desvalorização do real pode provocar aumentos nas referências nacionais.
A preocupação é que esses reajustes avancem pela cadeia produtiva. Soja e milho são matérias-primas utilizadas na fabricação de ração animal e influenciam diretamente os custos de produção de carnes, como frango, suínos e bovinos.
Clima e preço do diesel preocupam produtores
Além do câmbio, outros fatores podem interferir no mercado agrícola. O avanço do plantio da soja no Brasil é um deles. Segundo Viana, as condições climáticas têm permitido o desenvolvimento da semeadura na maior parte das regiões produtoras, embora áreas do Sul enfrentem dificuldades provocadas pelo excesso de chuvas.
A previsão de temperaturas mais elevadas com a chegada do fenômeno El Niño também preocupa o setor. As condições climáticas dos próximos meses poderão interferir no desenvolvimento das lavouras e na produtividade.
Outro ponto de atenção é o preço do óleo diesel, combustível utilizado em máquinas agrícolas e no transporte da produção.
Com a alta do petróleo após o início da guerra no Irã, o governo federal renovou por mais 30 dias a subvenção destinada a reduzir o preço do combustível.
O analista Gabriel Viana alerta que uma eventual mudança na política de subsídios poderá provocar aumento expressivo do diesel durante um período importante para os cuidados com as lavouras e o início da colheita.
Açúcar cristal acumula 15 semanas de valorização
O mercado de açúcar também registra pressão nos preços. Segundo o Cepea, a valorização do dólar contribuiu para intensificar as altas na última semana de outubro.
Entre os dias 26 e 30 de outubro, o preço médio da saca de 50 quilos do açúcar cristal branco em São Paulo chegou a R$ 128,57, aumento de 2,3% em relação à semana anterior.
A sequência representa a 15ª semana consecutiva de valorização, a mais longa desde 2020. Na terça-feira (3), a saca estava cotada a R$ 127,33, valor 1,5% superior ao registrado em 23 de outubro.
No mercado de trigo, a pressão cambial se soma às dificuldades de oferta do cereal de melhor qualidade. As chuvas durante o período de colheita prejudicaram parte da produção e contribuíram para elevar as cotações.
De acordo com o Cepea, o preço médio do trigo no Rio Grande do Sul subiu 2,2% em outubro. O estado é o maior produtor brasileiro do cereal, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Arroz e café também acompanham movimento de alta
O mercado de arroz também monitora os efeitos da valorização do dólar. No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, o aumento da moeda americana voltou a estimular o interesse do setor pelas exportações de arroz em casca.
Segundo o Cepea, a expectativa de retomada da demanda internacional levou alguns vendedores a adiar negociações. Enquanto isso, as indústrias mantiveram compras limitadas, diante das vendas fracas e da dificuldade de repassar os custos da matéria-prima.
Em outubro, o preço médio do arroz no estado alcançou o maior patamar nominal desde fevereiro de 2025.
No mercado de café, a valorização do dólar sustentou as cotações brasileiras, mesmo diante de quedas registradas no mercado internacional.
Na terça-feira (3), a saca de 60 quilos do café robusta chegou a R$ 975,32, alta de 4,1% em relação ao valor registrado antes do segundo turno. O arábica foi cotado a R$ 1.611,06, avanço de 0,6% no mesmo período.
Alta do dólar pode chegar ao consumidor
O cenário evidencia os diferentes efeitos da valorização da moeda americana sobre o agronegócio brasileiro. Para os produtores que comercializam no exterior, o dólar mais alto pode melhorar a remuneração das vendas em reais.
Para o consumidor, entretanto, a manutenção do câmbio elevado representa um risco de encarecimento dos alimentos. Isso porque os custos de produção, transporte e comercialização podem sofrer reajustes, pressionando os preços ao longo da cadeia produtiva.
A intensidade desse impacto dependerá da evolução do câmbio e de outros fatores, como condições climáticas, oferta de produtos e custos dos combustíveis.
Fonte: Diário da Manhã (DM) | Edição: TV Sudeste


